O PIOR CEGO É AQUELE QUE NÃO QUER VER

Uma vez me contaram a história de um cego.

Ele sempre subia em uma árvore lá perto de casa. Era o que me diziam.

É que tinha uma pracinha, e na pracinha algumas árvores. Mas ele sempre subia na mesma árvore. Talvez, porque já tinha tateado ela bem e tinha pegado o jeito de como subir nela. Acho que deveria ser por isso. Ou, porque aquela era a que ele mais gostava.

A gente não costuma ver muitos adultos em cima de árvores. Acho que nem crianças sobem em árvores mais, não é?!

Sabe, eu nunca havia visto nenhum adulto ou criança em cima de uma árvore. Não até aquele dia.

Era uma noite calma e tranquila. Eu saí para passear com o meu cachorro, como fazíamos em todas as noites calmas e tranquilas. Não tinha quase ninguém na rua e fomos caminhando até a pracinha lá perto de casa.

Meu cachorro, astuto como só, logo na primeira volta que demos parou e ficou olhando. Ele balançava a cabecinha para um lado e depois para o outro. Olhava sem parar para aquela árvore. Mas, eu não via nada.

Até que vi...


Tinha um homem sentado confortavelmente em um galho grosso com uma caneta na mão esquerda e um papel apoiado em seu colo. Ele escrevia, escrevia, escrevia.

Meu cachorro e eu, só observávamos.

Sentei em um banco um pouco distante da árvore e fiquei só olhando. 

Era uma cena bonita de se ver, um homem em cima de uma árvore, concentrado, escrevendo como se fosse algo muito importante que precisasse ser registrado logo. No céu uma grande lua cheia e no ar, o silêncio de uma noite calma e tranquila.

Num só pulo ele desceu.

Dobrou o papel cuidadosamente e colocou no bolso traseiro da calça, bem do lado direito. E a canete colocou no outro bolso, do lado esquerdo.

Eu não tinha visto, mas, havia um bengala bem no "pé" da árvore que ele estava. O homem pegou a bengala, passou a mão nos cabelos para ajeitá-los bem, e saiu tateando o chão com a bengala. 

Foi embora.

Só naquele momento foi que percebi: aquele era o homem cego do qual eu tanto havia ouvido falar.

Mas eu não entendi.

Fiquei olhando ele ir embora, usando a bengala como seus olhos, desviando do cesto de lixo e depois do tronco caído no chão. E eu, sem entender.

Não entendi direito o que eu tinha visto em cima daquela árvore.

Ele estava olhando o papel muito concentrado e habilidoso, nem parecia ser cego. Até mesmo a sua acrobacia para descer da árvore, pegando rapidamente em um galho e depois noutro, revelava que podia ver.

Enquanto esses pensamentos rondavam pela minha cabeça, eu vi um papel do bolso dele cair. Sai correndo para pegar e para entregar para ele, quem sabe de perto eu descobriria se era mesmo cego ou não.

Mas, quando peguei aquele papel... a curiosidade me venceu.

Eu precisava saber o que estava escrito nele.

O papel na minha mão. E o homem, sumindo no horizonte.

Abri:

"Garota, o pior cego é aquele que não quer ver"

...

Um beijo e até mais.

Comentários

Postagens mais visitadas